Versejos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Inquirições.

Quem és tu que arranca o filho do ventre da mãe para oprimi-lo e depois matar?
És o algoz? O carrasco sorrateiro que alimenta depois come?
Quem és tu que abafa o pranto, proíbe o gemido, mas não cura a dor?
És um homem? Um monstro? Um Deus?
Por que quer nos despir? Por que quer nossas vestes?
Quando te escondes nesse disfarce de herói, engana a poucos.
Tu me criaste, mas não permite que eu te toque
Não te vejo, mas te sinto no meio da multidão
Na cobertura dos hotéis de luxo acobertando a promiscuidade dos teus súditos ladrões
Sinto até embaixo do meu chapéu de couro exigindo contribuições
Dizem que tu és liberdade, mas só vejo imposição.
Tu me amedrontas com tuas regras, teus impostos, tuas prisões
Ouvi falar que tu és nobre e preza pela igualdade
Mas não entendo essa situação, pois o índio tem cacique e o branco tem patrão
Apesar de ser dito filho teu desconheço os teus palácios
Usas roupas de couro, ou és mais um desses homens de terno?
Já chegaram a dizer que em teu âmago és fraterno.
Diga-me, por favor, és senhor da terra ou do inferno?

*Áquila Almeida e Edmar Oliveira. 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma prece.

Ah, sertão! Posso sentir o cheiro das tuas folhas cinzas
O amargo sabor da sua sequidez
E esse teu chão rasgado entrecortado de (dês) esperanças
O céu num fulgor: pulcro e sedutor
São nos olhos alheios e padecentes das Maria’s que enxergo a poesia
Nos seus gemidos prantos navego num mar de sons
Vem, chuva!
Sacia nossa fome, faz verdes os nossos lares, alimenta a nossa dor
Vem e atende as preces da fulana nordestina, antes que suas pálpebras cerrem e seus lábios já não possam mais gemer pelo calor do seu dulçor
Os rios lamentam águas mortas 
E os raios de sol que vem parindo no horizonte
Ilumina a face dos filhos dessa terra mãe seca
Vem, chuva!
Vem e sacia a nossa fome. 
                                                            

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sobre amor ou alguma outra coisa.


Certa vez os olhos diáfanos de um homem buscaram a proximidade nos olhos cintilantes de uma mulher. Ambos se quiseram com volúpia e desespero. Ambos se pediam famintos e urgentes. Comiam-se com os olhos. Rogavam-se com ímpeto. Renderam-se ao amor. Clementes. Necessitados. Hipnóticos. Obedientes. Era amor com balbúrdia. Amor com desordem. Embalaram-se no frenesi da paixão. E juntos, faziam-se delírios e arroubos e ardências e veemências e despudores. Ele oferecia-lhe orquídeas e serenatas de amor. Ela oferecia-lhe a alma, o corpo, a vida. Ambos preenchiam suas ausências sem encabulamento, sem intimidação. Ele, homem sóbrio e de apego as tradições, quis fazê-la sua convidando-a as solenidades de um romance. Ela fez-se entregue a tão arrebatado sentir. Fizeram as juras formais do para todo o  sempre. E devanearam. Devanearam com as intermináveis cálidas noites de afeto, com a triunfal e infinda existência do amor. E sorriam. Sorriam entusiasmados, com desejo, com gratidão. Viveram por muito tempo regados a fartura e abundância. Só que um dia a ausência do amor os partiu... Partiu dilacerando aquilo que um dia conjecturaram ser eterno.                                                                                  

sábado, 16 de julho de 2011

Sem título.

 Era mais uma das minhas viagens cotidianas. Estive acolhida a só numa poltrona velha e imunda num desses ônibus escrotos que fazem tour por aí. Estava um calor insuportável. Em desespero abrir as janelas daquela tralha infame e vetusta. Trouxe-me alívio até. Fiquei ali sozinha a observar o movimentar tumultuoso dos muitos e enérgicos passageiros que tentavam se arranjar em seus lugares e eis que me deparo com uma pequena. Seu nome era Gabriela. Soube disso horas depois. Gabriela entrou assustada. Era menina de riso difícil. Seus olhos carcomidos me comoveram.
O ônibus estava apertadamente cheio. Gabriela veio caminhando a passos curtos e tímidos. Estava acompanhada do pai e da mãe. Assentou-se numa poltrona a minha frente. Por instinto ela seguiria agarrada a mãe, mas fora colocada num canto apartada. Seus pais sentaram-se em lado oposto ao lugar que abrigava a minha pequena imaculada. Quando a vi tive vontade de colocá-la no colo, de fazer mimos, de cantar-lhe canções de ninar. Amei a pequena Gabi com tanta urgência, com tanto imediatismo. Desconheci a mim. Fui apresentada a nobres sentires que nunca me soou passíveis de acontecer. O dia carregava um quê peculiar e bonito. Estranhamente senti amor: Sôfrego, veloz, faminto. Era um amor maternal já me rasgando o peito. Amor pueril, amor principiante, amor de quem necessita amar.                                    
Nunca fui mulher de fácil comoção. Esse dia foi estranho e aposto a mim. Talvez a razão dos arroubos que carrego agora. Talvez razão da renascença que me acomete o hoje. Talvez o dia das minhas tardias redenções.                                       
 Havia me desgarrado dos medos e assombros que habitavam em mim, do meu habitual instinto em maldizer a vida. Eu fui parida de novo. Tingiram-me de nova cor: Ávida, viva, intensa, vibrante.
Não sei muito sobre os pais de Gabi. Eu os fitei sem muita emoção. Senti desprezo precipitado. Coisas que devem ser explicitada sobre pai e mãe: Eram dois eternos amantes. Um homem e uma mulher exaltados de paixão. Durante todo o trajeto não se cansaram de fazer trocas mútuas de olhares malícias. Fizeram de Gabi escória. Fizeram de Gabi ausência. Fizeram de Gabi inadmissão. Era engraçado observá-los sorrir nada incômodos, um a mordiscar o outro. Ritual de romantismo escroto, ou sabe-se lá o quê. Fogosos bastam a si. Gabriela talvez fosse o estorvo aquela volúpia desavergonhada no ônibus. O óbice aquela lascívia inapropriada e atemporal.                                                                                     
Esqueçamos por agora os dois. Deixe que eu fale da menina. Gabriela estava sentadinha, comedida e intimidada. Lembro-me bem da palidez no seu rosto. Vestia-se com roupas tão pouco menina, tão maltrapilhazinha, tão desajeitada! Seus cabelos eram um emaranhado de fios longos e despenteados. Era menina enjeitada pelo pai, pela mãe, talvez também pelo mundo. Tinha um olhar lânguido e dolente.
Gabriela era só desamparos. Fiquei a conjecturar sozinha sobre a razão daquela negligência impiedosa. Será Gabi fruto de um amor outro? Será Gabi procriação não-querida? Será Gabi cria sem legitimação? E tudo redundava nessas inquirições.
O rumo que a menina tomaria me era alheio. Sei que eu a seguiria até o ponto final, então meu observar seria íntegro enquanto estivéssemos ali. Entrava e saía gente. E esse ciclo perdurou por muito tempo. Não me cansava de olhar a menina. Tentei desnudar-lhe a alma. Vi pouco. Vi dor. Vi descontentamento. Vi retração. Ousei inclinar os olhos aos pais da menina, era altamente colérico contemplar aquele teatro de paixão obcecada. Gostar doentio.
Pararam o ônibus num desses armazenzinho de beira de estrada. Eu nem consegui me mover. Não tive vontade de sair dali. Nem tinha fome.
O pai de Gabriela levantou urgente e saiu. Atravessou os umbrais do mercado, veio munido de boas comidas. Vi pães com cobertura de goiaba na sacola. Havia latas de refrigerante. Pasteis num outro pacote. Os amantes comeram a tudo com volúpia e fome. E sorriam. E lambiam os dedos. E colocavam pão um na boca no outro. E sorriam de novo. As mãos tangiam furiosas os pacotes. Deliciavam-se com os pães. Entupiam-se de refrigerantes. E sorriam. Sorriam.  E se insinuavam. E comprimiam seus corpos um ao outro. E tinha beijos. E eram loucos. E eram ardentes. E tinham fome. E partilhavam mais pedaços de pão. Num ritualismo frenético e quase nojento. 
A menina estava do outro lado. Em típico esquecer. Levantei de leve o corpo e fiz menção de que ficaria de pé. Curvada deu para enxergá-la melhor. Vi a pobre adormecida na poltrona. Nem ousei querer lhe tomar nos braços e prestar-lhe alento. Seria atrever demais. Retornei contida ao meu canto.
Passaram-se algumas horas. A menina com seus cabelos assanhados levantou tímida e acenava com os dois braços a mãe e ao pai. Suas mãos eram invisíveis. Então ela fez uso da sua acanhada voz e gemia baixinho: - Mamãe, mamãe. E seus solfejos infantes eram inaudíveis. Insistiu reiteradas vezes fazer-se notada. Tudo em vão. 
Lembro que fora pouco o ínterim entre este acontecimento e o que estava por vir. Os amantes ergueram-se do assento e agoniados gritavam: - Vamos descer, vamos descer. Olhei para minha amiguinha desconhecida e sorri. Despedida triste. Ela me sorriu também. Como foi incrivelmente bom vê-la sorrir. Deslumbrada insisti em fitá-la e segurei o meu riso contente. Foi bem aqui que desvendei seu nome. O instante foi interrompido pelo barulho do ônibus a movimentar de novo. A menina olhou assustada e desatou em prantos. Aquele instante soou com tanta conveniência, pareceu que eu já esperava por aquilo. Sim, a menina fora esquecida mais uma vez. Agora não era um esquecer velado e dissimulante.  Ah, dessa vez doeu.  A menina chorava a muito.
Aqueles soluços constantes e doídos feriam meu peito. Atravessei rápida e a coloquei no colo. A comprimir junto ao meu corpo. Ofereci-lhe sem cerimônia o calor do meu abraço. A menina continuou atemorizada e chorante. Roguei aos gritos que parassem o ônibus, eu iria descer. Peguei minhas bolsas. Segui trôpega com a menina no colo.  Apertando-a ainda com mais força. Eu nem sabia mais de mim. Estava feito louca em busca de dois alheios amantes. Dois vagabundos amantes. Corri meio desajeitada pelas ruas negras e frias daquele lugarejo que me era incomum. Não sabia por onde ir. Onde entrar. Que rumo tomar.  Numa audácia atípica e invulgar, prosseguir com meus passos longos e céleres. Já sem muito fôlego. Sem esperança de encontrar os donos daquela pobre menininha.  Foi aí que avistei a imagem turva de um homem e de uma mulher salientes. Eram os pais de Gabi.  Gritei assustada. Então, eles, viraram sorrindo e despreocupados. Estavam tão embriagados com aquele romance que mal puderam notar a ausência da menina.    
Quando por fim aperceberam que eu carregava Gabriela nos braços. Quedaram-se inertes e posicionaram as mãos na cabeça em sinal de espanto. Ajuntaram-se a mim e proclamaram um: - Por Deus! Arrancaram-me vorazes a menina do colo. Sacolejaram a pequena chorosa e disseram-lhe: - Vês o quão desatenta és? Como ousa a não seguir a gente?
A menina se retraia em meio ao choro e ao medo. Escutava atenta aquele ritual de imputações desaforadas.    Eu quis me atrever a dizer algumas poucas palavras. Estava quase letárgica. Faltaram-me forças. Não falei. Olhei doída para a menina agarrada as pernas da mãe. Atônita. Estremecendo com os gritos do pai. Eu quis tirá-la dali. Furtá-la pra mim. Aspirei à delinquência. Céus!             
Foi então que a mãe, despertando daquela paixão obcecada, em fuga aquele pieguismo sacana, relegando a miopia, gritou desesperada ao homem. Esperneou com euforia.  Agarrou a menina nos braços. Beijou-a com tanta força. Havia amor. Estranho. Havia amor.                                                     
   Meu semblante era de uma amargura tamanha. Fora transmudando aos poucos quando vi a menina começar a sorrir. Estacou o choro. Apertava o rosto da mãe. Beijava-a de um canto a outro. Entusiasmo triunfal.
Passei a me sentir perdida por ali. Estava me imiscuindo de um momento que não devia ser meu. Acenei tímida e fui-me embora. Caminhei sem destino algum. Voltei com menos dor. Bordei Gabriela nas lembranças. Intento nunca apagá-la de lá.
Partimos a lados opostos. E aquele pedaço mal feito de viagem foi o bastante. Foi o bastante para me incitar o desejo de acontecer na vida sem tanta parcimônia. O bastante para que eu aprendesse a sentir a dor de alguém. O bastante para me salvar do modo amargo e doído que carregava no meu existir. O bastante para me provocar a ser o tudo e o muito que nunca fui.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre ser livre.


Ela tinha acordado disposta ao tudo. Ausente daquela sua dolência habitual. Sentiu a vida pulsar. Percebeu que sim: Fora parida para algum tipo de propensão. 

Levantou sem carregar o peso da sua animosidade cotidiana, tomou uns goles de café e seguiu calma até a modesta janela do seu hóspede e acanhado cômodo. Ela gostava da vida que se derramava fora da sua alcova particular: Enérgica. Vibrante.

A sonoridade assombrosa daquelas ruas balburdiosas e cheias se apresentavam como músicas aos seus ouvidos. Estava dispersa e distante. A fazer as mais loucas e eufóricas das confabulações. Sentia-se atraída pelo tudo que o ocasionar mostrava-se ser.

Encarava atenta, com aqueles seus olhos tépidos, a vida correndo lá fora. Ao modo mais audaz e profano se predispôs a solfejar versos de libertinas canções que o tempo lhe fizera serem sabidas: Temerárias. Incitantes.


Impetuosa não se impôs limites. Em hiato pontual e curto quis fazer-se plena. Salta trôpega do vigésimo terceiro andar: aquiescendo com a loucura, bradando liberdade, suplicando redenção.    

domingo, 26 de junho de 2011

Caminhos primeiros.


Era chegada a hora. Seu corpo estava trêmulo e em ânsia. A menina segurava bolsas nas mãos. Bolsas grandes e de peso. Ela era deveras ociosa e caminhava a passos curtos. Apressou o andar. Não podia permitir ser deixada para trás. Fôlego. Ela precisava de fôlego.
Seus movimentos a pungiam. Ah, como a maltratavam! E não, não era apenas um pesar físico. A pobre menina conduzia o corpo a um lugar que não queria estar, mas teria de ir, ela precisava seguir, precisava estar lá. Vamos menina, sem receios, apressa-te! - pensou quieta.
O sol aparecia num fulgor incomensurável. Sua pele ardia. O calor a agoniava. Mas esse não era o maior dos problemas. Não mesmo. Seus olhos estavam pálidos, amargos, carcomidos. Viver doía. Estar ali doía. Não poder desistir de tudo doía ainda mais.                                                                         
Depois de caminhar metros tantos, aproximou-se de um ônibus velho. Abriram-se as portas. A menina entrou assustada. Acenou timidamente a algumas poucas pessoas. Ritual de cordialidade tola, não conhecia ninguém por ali.  Veio se achegando mansa, na sua leniência habitual. Acomodou-se num assento e pode enfim suspirar. Ainda tesa e rígida. Ah, vida infame!
Um novo mundo se derramava sobre a pequena. Ela era só uma menina de candura que precisaria encontrar forças para suportar os desafios que a vida lhe impunha, haveria de encontrar, acreditem, ela haveria de encontrar. Por agora viver era altamente lancinante e doído.                                                         
Lá quieta no seu assento o instante era de reinante solidão. O tempo era seu pior inimigo. Ah, o tempo! Tardava, torturava, protraía-se em hiatos longuíssimos. Grande terror!
Ao seu modo acanhado de conjecturar sozinha, pensou: Como é ruim sentir-se só. Como é ruim sentir-se só. Como é ruim sentir-se só. E fez questão de reiterar isso umas mil vezes.
Reminiscências. Fazia bem vigiar as lembranças. Das mais pueris e incríveis, as mais dolorosas e sufocantes. A menina chorou. Chorou de medo. Ela sentia receio e era difícil contê-lo.
Olhou de um canto a outro para verificar se estava sendo vigiada. Era tímida demais para ser vista com lágrimas nos olhos. Tímida demais pra explicitar ao mundo seus soluços de dor.
Fugiu dos olhares alheios que a perseguiam. Virou-se de lado. Passou a observar o céu tingido de azul lá fora. O desfile sereno do vento lhe trazia um punhado de paz. Comeu a sonoridade. E em ato de contumaz introspectividade  versejava apenas para si. Estava dispersa. Adormeceu.
Instantes tantos depois despertou. A angústia ainda reinante inibia a espontaneidade dos seus gestos. Bocejou contida. Riu ao senhor de meia idade que agora estava ao seu lado. Riso dual, pequeno, comedido. Nada se disseram. Estranhos partilharam daquela porção  suave de silêncio. Ah, o silêncio! Ah, o silêncio!
A trajetória interminável lhe abatia. Era um percurso longo. Evocou com quietude e com a alma o colo da mãe. Como ousara tanto? Já devia ter seus dezessete anos e suplicou pelo colo quente da mãe. Não pressuponhas coisas. Não a pré-julguem tanto. A mãe era o seu verbo. Seu cais. Assistia razão o invocar.
A taciturnidade prosseguiu no canto em que se encontrara. Do outro lado via-se uma criança gemer baixinho. Passaria. Passaria. A menina arfava. Era chegada à hora.                 
Levantou-se do lugar que a abrigara durante terríveis cinco horas. Fez-se conhecida a algumas poucas pessoas. Pegou suas pesadas bolsas. Passou pelo longo e simétrico corredor. Abriram-se as portas. A menina partiu.
Mal pôde suportar o peso da angústia que sua alma habita. Mal pode suportar as pesadas bolsas que trazia consigo.
Achegou-se no limiar de uma calçada e foi-se descansar por lá. Precisava percorrer um caminho ainda longínquo. O vento que esvoaçava tímido despenteou os fios do seu cabelo. Vagarosa se pôs a arranjá-los. Prudentemente recolocou as bolsas sobre os ombros e prosseguiu calma.
Caminhava devagarzinho. Não tinha pressa com o nada. Observava atenta a pulcritude  da cidadezinha. Tão inócua, tão acolhedora, tão singela.
Mas uma vez sentiu medo, embora seu olhar fosse de uma intrepidez audaz.          
Parecia estar ciente de si. Eu bem a conheço e isso fazia parte do seu tão pouco heróico fingimento. Ato de dissimulação cotidiana. Ninguém precisaria saber o quanto era frágil e insegura. Ninguém. 
Depois de caminhar um bocadinho de tempo, chegou-se perto de uma casinha. Um lugar desconhecido. Tomaria abrigo por lá. Foi bem recebida, embora o acanhamento tomasse conta da dona que lhe abrira a porta. A menina recolheu levemente as pálpebras. Agradeceu por chegar bem. Atravessou comedida os umbrais da residência. Estava espantada.  Agora estaria acolhida num lugar alheio, vivendo com pessoas alheias, passando a chamar de lar um lugar que não era seu.
Sem pessimismos tolos. Viva menina. Viva.
Na verdade, a única coisa que lhe restava fazer era viver, embora ainda com ressentimentos, só lhe restava viver. A menina precisaria fazer com que aquele pedaço de existência lhe valesse a pena. Sim precisava. Seja atrevida ao menos com isso. Seja.
A menina observou atenta o cômodo. Sua alcova de salvação. Caiu sobre a acolhedora cama acobertada por lençóis de poucos fios. Pôs-se mais uma vez a chorar. Chorar de manso. Chorar de íntimo. As lágrimas quentes que escorriam sua face tornaram-se vulgares. Um lacrimar rotineiro e de constância habitual.  
Os ponteiros do relógio a agoniavam. Tão sistemáticos, tão torturadores. Insistiam, ferozes e maldosos, em travejar o tempo. Ora, mas que procrastinação cretina. Isso lhe acirrava os ânimos. 
Chegou-se tão perto da hora. Tomou um banho. Vestiu-se das melhores roupas. Saiu. Estava sozinha. Estar sozinha foi sempre a parte ruim da história. Tudo tão novo, e tão diferente, e tão estranho. Era uma menina de poucas palavras. Estranha e de poucas palavras. Ela só almejou descobrir se estar ali lhe doeria menos. É, no momento só precisaria dessa resposta. Nem sempre é possível conseguir o que tanto se quer. Sábia constatação clichê.
E na maior morosidade do mundo: o tempo passou.                                        
Quatro dias. Esperou quatro dias. No quarto dia fora acometida por sentires inomináveis. Um punhado de felicidade, um punhado de nostalgia, um punhado de emoção.
Era o dia. O dia de colocar as bolsas nos ombros. O dia da excitação. Voltou o ânimo. Voltou a sorrir. 
A menina mais uma vez partiu. O trajeto agora tinha canto. Tinha riso. Dessa vez foi intimamente contente. 
Nada lhe roubaria o prazer de fazer-se feliz por inteiro. Estava exaltada e contente. Não ousou pensar no que viria depois, não ousou. Negligenciou ao tudo. O presente e a ulterioridade. 
Sem pensar nas dores que a acometeriam o depois, sem mensurar a efemeridade do instante, entusiasmou-se com a tão quente oportunidade de, no quarto dia, poder voltar pra casa. 





quinta-feira, 23 de junho de 2011

...

Minha loucura é vigiada e parcimoniosa. É timorata e sóbria. É acometida por punhados de razão. Minha loucura é parca e miúda. É ingênua e amena. É de prudência pueril. Minha loucura é avessa e principiante. É empobrecida e modesta. Não sabe atrever ou ousar. Minha loucura é acanhada e contida. É de delírio escasso. Não é tempestade ou vulcão. Minha loucura sou eu: Pudica e alheia. Emudecida e doída. Puro fingimento e contradição.                                                                                                          

terça-feira, 14 de junho de 2011

A menina e os livros.

Ana era o seu nome. Ana tinha atração pelos livros. Era uma eterna amante das palavras. Seu íntimo era de uma mudez arcana. Ana era silêncio calado. Ana sempre quis pouco: Ela, o silêncio e as palavras. Ana tinha um modo singular de comer livros. Era inteiramente faminta. Ao sugar a essência do que é escrito, o fazia em total ferocidade, em soberbo enlevo, em triunfal delírio. Os livros lhe eram fonte de onde germinava vida. Ana amava suplicante e submissa os verbos. Ana amava, impetuosa e ardente, os vocábulos dispersos no papel. Ana amava a forma como os versos chegavam até si. Num sentir dualíssimo, os livros lhe eram: Mimo e pungência. Sonho e tragédia. Encontro e saudade. E no vasto e silabado universo de menina e livros, via-se com lucidez: o toque castíssimo de mãos e papeis, a fome voraz por palavras e verbos e o despudor de dois amantes: vivos, astutos, contentes.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Uma Clariceana.

Já não sei se confessar meu amor as palavras faz parte de algum tautologismo chato que irrite a muitos. É que nunca me basta. Não se trata de mera redundância ou reiterações desnecessárias. Quando digo que amo as palavras estou sendo bastante franca. 
Não consigo vislumbrar quantas vezes confessei meu amor a essas damas faustas e acho que rememorar o quanto seria de uma escassez intelectiva terrível. Que se dane então! 
Hoje quero escrever sobre o arroubo e o enlevo acometido pelo contato com o vasto universo de palavras da Clarice Lispector. Devo começar com uma confissão: Clarice me toca. Essa mulher mexe comigo. Nutro encantos incomensuráveis por sua escrita vulcânica e apaixonante. 
Assim como Clarice, insisto em viver pra dentro. Sinto como se fôssemos íntimas, não sei se essa constatação é ingênua e se for que seja no mínimo escusável, redimam meus entusiasmos!
Quando leio e sinto Clarice, parece que ela toma conta de mim e me despe por inteiro. Clarice é enigma, mas também encontro. É silêncio e rumores. É soco no meio do estômago. Clarice é tão minha quanto sou dela. Amo-a com urgência e necessidade. E quando professo ser uma clariceana, não minto.
São poucos os que não se rendem a vivacidade da sua escrita. Eu, por exemplo, me rendi muito fácil. 
Meu contato primeiro com Clarice foi através de uma entrevista que passava reiteradas vezes da TV cultura, concedida pouco tempo antes dela morrer. Fiquei fascinada quando a vi. Tudo nela mexia comigo: A sonoridade da voz, a languidez no olhar, seu ar arcano, a implicitude dos dizeres, o mistério do riso difícil, enfim, tudinho. Foi um amor desses que medra repentina e imediatamente. Já ali, percebi que Clarice dizia de mim. Foi então que decidi devassar seu mundo. Pretensão ingênua a minha, pois que nunca consegui, tamanho o seu icognicismo. 
Depois da entrevista, me rendi a soberba da sua escrita através do livro ' A Hora da Estrela', que à época foi a leitura mais incrível da minha vida, já hoje posso dizer cultivar de novos amores. 
'A hora da estrela' mexia comigo de um jeito especial. No auge dos meus treze anos 'me' descobri uma Macabea. Uma moça ingênua de vivência parca e amena, vazia de si, oca e cheia de ausências indizíveis. 
Macabea era um vivo retrato meu. Inteira. Intacta. A obra me acometia de sentires tantos. Cheguei inclusive a sentir raiva da ingratidão da nossa narradora com sua obstinação em dar um fim que não trágico aquela triste história. Pobre Macabea. Chorei sua dor. E ainda choro ao rememorá-la. De manso e por dentro.
E depois, depois já não dá pra minudenciar em palavras as minhas vivências com Clarice. Sei que me tornei uma leitora esfaimada de suas obras. 
A força e a intensidade das emoções que Clarice derrama na sua escrita é sempre uma grande provocação. Clarice escreve convidando-nos a mergulhar dentro de nós mesmos ao modo mais agônico possível. Nossa Clarice seduz, seja pelo seu atraente enigmatismo, seja pela sua introspectividade pungente ou sei mais lá pelo quê!
A razão da minha escrita é bem singela, é que apenas senti a ávida necessidade de fazer a seguinte revelação: Sou uma Clariceana confessa. Uma dessas leitoras apaixonadas que quando ler Clarice delira esfaimada, sem pudor, sem intimidação.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Uns dizeres e só.

Hoje, por pura nostalgia, fui reler uns velhos e-mails e encontrei um escrito, demasiado intimista, endereçado a um ébrio poeta amigo meu. É engraçado como as palavras sobrevivem intactas ao tempo. Estão sempre vivas. Entre muitos dizeres, colhi uma confissão que, em muito, se coaduna com o instante presente. Esses são os seus termos:  "Cá estou eu, mais uma vez, sozinha e acolhida por um cômodo alheio. Depois de um dia fatigante, debrucei-me sobre a cama e esperei pelo fechar voluntário das pálpebras. Tudo em vão. Estou sendo vigiada por sombras amorfas. E há tantas coisas que eu gostaria de fazer agora, mas não. Recebo o silêncio como hóspede e me deixo ir..."  Sem que haja transmudações. O sentir é inteiramente o mesmo.  



sexta-feira, 27 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Breve constatação.

Quieta e pensante conjecturei: - Puxa vida! Sou contradição. E sem protrair em mais hiatos aquele instante de descoberta angustiante, num ato voraz, rasguei minha consciência e chorei. Chorar e contradizer-se me fez bem. Ofertou-me a incrível sensação de que: É. Ainda sou humana. 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sem título.

  
Tarde louca de domingo
Costura torta de palavras
Desassossego atroz.                                                                                                    
Tarde triste de domingo
Cigarro aceso
Ebriedade eclipsar.         
Tarde atípica de domingo
Fuga de versos
Reinante (dês) inspiração.                                                                                       
Tarde sóbria de domingo
Escrita em retalhos
Doses quentes de café.
Tarde infame de domingo
Devaneios ocos
Súplica versejal.    
Tarde finda de domingo
Linhas parcas e um aclamar:
- Vem poesia, só tu podes me salvar!                                                                                    
                                                                                         

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os olhos de Mamãe.

Mamãe me olhou com serenidade e quietude. Seus olhos seduzem, pacificam. Ah, os olhos verdes de mamãe! Sabem bem como conversar intimamente comigo. Sorri contida em agradecimento a ternura que me entregava toda vez que direcionava aquele olhar silente até mim. Nada nos dissemos, embora houvesse compreensão. Delirei com aquela marcha de amor, com aquele valsar de afeto bordado em seus olhos, sempre confessando uma verdade cada vez mais vulgar, mas ainda alucinante. Um silêncio cadenciado ao meio de tudo. Ritual de contumaz airosidade. Ela rasgou audaz a quietude daquele instante e entre o silêncio de mamãe e o meu silêncio, fora tecido um singelo e sonoro, - eu te amo. Embora gentis, pouco me importavam às palavras. Seus olhos já devassavam tudo. Como almejei apropriar-se daquele olhar: tão luz, tão cândido, tão vida. Era um desejo pouco tragável. Tudo bem. O olhar é dela e o fascínio é meu, que seja então. Contento-me. Habitualmente é assim: Um encontro, seu verde olhar tênue e cintilante a me fitar e a ânsia pela vida se apoderando de mim.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Um acenar singelo.

Sempre nutri um fascínio especial pelas palavras. Gosto do delírio que elas me ocasionam. Desde muito pequenina sentia necessidade de bordar versos ou coisas assim. Tear palavras é um dos meus maiores deslumbres pessoais. É forma de vivificação cotidiana. Escrevo faminta e despudora. Sem parcimônia. Urgente. Agônica. O problema é que sempre carreguei comigo a intimidação de desnudar-se ao outro e o receio de explicitar minha escrita a estranhos. Hoje amanheci mais viva e pulsante. Bem mais audaz e impetuosa. Razão maior de estar aqui. Sepultei meu medo comezinho e escroto e cá estou a fazer minha primeira postagem virtual. Confesso não ser uma grande escritora. Produzo coisas sóbrias, de beleza escassa e tacanha. Isso é o que menos importa, creio eu. Meu intento maior com a criação do blog é fazer estancar minha maldade com as palavras. Não posso mais aprisioná-las tanto. Quanto a experiência de ter um blog, espero poder vê-lo sobreviver ao tempo. É, espero.