Versejos.

domingo, 26 de junho de 2011

Caminhos primeiros.


Era chegada a hora. Seu corpo estava trêmulo e em ânsia. A menina segurava bolsas nas mãos. Bolsas grandes e de peso. Ela era deveras ociosa e caminhava a passos curtos. Apressou o andar. Não podia permitir ser deixada para trás. Fôlego. Ela precisava de fôlego.
Seus movimentos a pungiam. Ah, como a maltratavam! E não, não era apenas um pesar físico. A pobre menina conduzia o corpo a um lugar que não queria estar, mas teria de ir, ela precisava seguir, precisava estar lá. Vamos menina, sem receios, apressa-te! - pensou quieta.
O sol aparecia num fulgor incomensurável. Sua pele ardia. O calor a agoniava. Mas esse não era o maior dos problemas. Não mesmo. Seus olhos estavam pálidos, amargos, carcomidos. Viver doía. Estar ali doía. Não poder desistir de tudo doía ainda mais.                                                                         
Depois de caminhar metros tantos, aproximou-se de um ônibus velho. Abriram-se as portas. A menina entrou assustada. Acenou timidamente a algumas poucas pessoas. Ritual de cordialidade tola, não conhecia ninguém por ali.  Veio se achegando mansa, na sua leniência habitual. Acomodou-se num assento e pode enfim suspirar. Ainda tesa e rígida. Ah, vida infame!
Um novo mundo se derramava sobre a pequena. Ela era só uma menina de candura que precisaria encontrar forças para suportar os desafios que a vida lhe impunha, haveria de encontrar, acreditem, ela haveria de encontrar. Por agora viver era altamente lancinante e doído.                                                         
Lá quieta no seu assento o instante era de reinante solidão. O tempo era seu pior inimigo. Ah, o tempo! Tardava, torturava, protraía-se em hiatos longuíssimos. Grande terror!
Ao seu modo acanhado de conjecturar sozinha, pensou: Como é ruim sentir-se só. Como é ruim sentir-se só. Como é ruim sentir-se só. E fez questão de reiterar isso umas mil vezes.
Reminiscências. Fazia bem vigiar as lembranças. Das mais pueris e incríveis, as mais dolorosas e sufocantes. A menina chorou. Chorou de medo. Ela sentia receio e era difícil contê-lo.
Olhou de um canto a outro para verificar se estava sendo vigiada. Era tímida demais para ser vista com lágrimas nos olhos. Tímida demais pra explicitar ao mundo seus soluços de dor.
Fugiu dos olhares alheios que a perseguiam. Virou-se de lado. Passou a observar o céu tingido de azul lá fora. O desfile sereno do vento lhe trazia um punhado de paz. Comeu a sonoridade. E em ato de contumaz introspectividade  versejava apenas para si. Estava dispersa. Adormeceu.
Instantes tantos depois despertou. A angústia ainda reinante inibia a espontaneidade dos seus gestos. Bocejou contida. Riu ao senhor de meia idade que agora estava ao seu lado. Riso dual, pequeno, comedido. Nada se disseram. Estranhos partilharam daquela porção  suave de silêncio. Ah, o silêncio! Ah, o silêncio!
A trajetória interminável lhe abatia. Era um percurso longo. Evocou com quietude e com a alma o colo da mãe. Como ousara tanto? Já devia ter seus dezessete anos e suplicou pelo colo quente da mãe. Não pressuponhas coisas. Não a pré-julguem tanto. A mãe era o seu verbo. Seu cais. Assistia razão o invocar.
A taciturnidade prosseguiu no canto em que se encontrara. Do outro lado via-se uma criança gemer baixinho. Passaria. Passaria. A menina arfava. Era chegada à hora.                 
Levantou-se do lugar que a abrigara durante terríveis cinco horas. Fez-se conhecida a algumas poucas pessoas. Pegou suas pesadas bolsas. Passou pelo longo e simétrico corredor. Abriram-se as portas. A menina partiu.
Mal pôde suportar o peso da angústia que sua alma habita. Mal pode suportar as pesadas bolsas que trazia consigo.
Achegou-se no limiar de uma calçada e foi-se descansar por lá. Precisava percorrer um caminho ainda longínquo. O vento que esvoaçava tímido despenteou os fios do seu cabelo. Vagarosa se pôs a arranjá-los. Prudentemente recolocou as bolsas sobre os ombros e prosseguiu calma.
Caminhava devagarzinho. Não tinha pressa com o nada. Observava atenta a pulcritude  da cidadezinha. Tão inócua, tão acolhedora, tão singela.
Mas uma vez sentiu medo, embora seu olhar fosse de uma intrepidez audaz.          
Parecia estar ciente de si. Eu bem a conheço e isso fazia parte do seu tão pouco heróico fingimento. Ato de dissimulação cotidiana. Ninguém precisaria saber o quanto era frágil e insegura. Ninguém. 
Depois de caminhar um bocadinho de tempo, chegou-se perto de uma casinha. Um lugar desconhecido. Tomaria abrigo por lá. Foi bem recebida, embora o acanhamento tomasse conta da dona que lhe abrira a porta. A menina recolheu levemente as pálpebras. Agradeceu por chegar bem. Atravessou comedida os umbrais da residência. Estava espantada.  Agora estaria acolhida num lugar alheio, vivendo com pessoas alheias, passando a chamar de lar um lugar que não era seu.
Sem pessimismos tolos. Viva menina. Viva.
Na verdade, a única coisa que lhe restava fazer era viver, embora ainda com ressentimentos, só lhe restava viver. A menina precisaria fazer com que aquele pedaço de existência lhe valesse a pena. Sim precisava. Seja atrevida ao menos com isso. Seja.
A menina observou atenta o cômodo. Sua alcova de salvação. Caiu sobre a acolhedora cama acobertada por lençóis de poucos fios. Pôs-se mais uma vez a chorar. Chorar de manso. Chorar de íntimo. As lágrimas quentes que escorriam sua face tornaram-se vulgares. Um lacrimar rotineiro e de constância habitual.  
Os ponteiros do relógio a agoniavam. Tão sistemáticos, tão torturadores. Insistiam, ferozes e maldosos, em travejar o tempo. Ora, mas que procrastinação cretina. Isso lhe acirrava os ânimos. 
Chegou-se tão perto da hora. Tomou um banho. Vestiu-se das melhores roupas. Saiu. Estava sozinha. Estar sozinha foi sempre a parte ruim da história. Tudo tão novo, e tão diferente, e tão estranho. Era uma menina de poucas palavras. Estranha e de poucas palavras. Ela só almejou descobrir se estar ali lhe doeria menos. É, no momento só precisaria dessa resposta. Nem sempre é possível conseguir o que tanto se quer. Sábia constatação clichê.
E na maior morosidade do mundo: o tempo passou.                                        
Quatro dias. Esperou quatro dias. No quarto dia fora acometida por sentires inomináveis. Um punhado de felicidade, um punhado de nostalgia, um punhado de emoção.
Era o dia. O dia de colocar as bolsas nos ombros. O dia da excitação. Voltou o ânimo. Voltou a sorrir. 
A menina mais uma vez partiu. O trajeto agora tinha canto. Tinha riso. Dessa vez foi intimamente contente. 
Nada lhe roubaria o prazer de fazer-se feliz por inteiro. Estava exaltada e contente. Não ousou pensar no que viria depois, não ousou. Negligenciou ao tudo. O presente e a ulterioridade. 
Sem pensar nas dores que a acometeriam o depois, sem mensurar a efemeridade do instante, entusiasmou-se com a tão quente oportunidade de, no quarto dia, poder voltar pra casa. 





quinta-feira, 23 de junho de 2011

...

Minha loucura é vigiada e parcimoniosa. É timorata e sóbria. É acometida por punhados de razão. Minha loucura é parca e miúda. É ingênua e amena. É de prudência pueril. Minha loucura é avessa e principiante. É empobrecida e modesta. Não sabe atrever ou ousar. Minha loucura é acanhada e contida. É de delírio escasso. Não é tempestade ou vulcão. Minha loucura sou eu: Pudica e alheia. Emudecida e doída. Puro fingimento e contradição.                                                                                                          

terça-feira, 14 de junho de 2011

A menina e os livros.

Ana era o seu nome. Ana tinha atração pelos livros. Era uma eterna amante das palavras. Seu íntimo era de uma mudez arcana. Ana era silêncio calado. Ana sempre quis pouco: Ela, o silêncio e as palavras. Ana tinha um modo singular de comer livros. Era inteiramente faminta. Ao sugar a essência do que é escrito, o fazia em total ferocidade, em soberbo enlevo, em triunfal delírio. Os livros lhe eram fonte de onde germinava vida. Ana amava suplicante e submissa os verbos. Ana amava, impetuosa e ardente, os vocábulos dispersos no papel. Ana amava a forma como os versos chegavam até si. Num sentir dualíssimo, os livros lhe eram: Mimo e pungência. Sonho e tragédia. Encontro e saudade. E no vasto e silabado universo de menina e livros, via-se com lucidez: o toque castíssimo de mãos e papeis, a fome voraz por palavras e verbos e o despudor de dois amantes: vivos, astutos, contentes.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Uma Clariceana.

Já não sei se confessar meu amor as palavras faz parte de algum tautologismo chato que irrite a muitos. É que nunca me basta. Não se trata de mera redundância ou reiterações desnecessárias. Quando digo que amo as palavras estou sendo bastante franca. 
Não consigo vislumbrar quantas vezes confessei meu amor a essas damas faustas e acho que rememorar o quanto seria de uma escassez intelectiva terrível. Que se dane então! 
Hoje quero escrever sobre o arroubo e o enlevo acometido pelo contato com o vasto universo de palavras da Clarice Lispector. Devo começar com uma confissão: Clarice me toca. Essa mulher mexe comigo. Nutro encantos incomensuráveis por sua escrita vulcânica e apaixonante. 
Assim como Clarice, insisto em viver pra dentro. Sinto como se fôssemos íntimas, não sei se essa constatação é ingênua e se for que seja no mínimo escusável, redimam meus entusiasmos!
Quando leio e sinto Clarice, parece que ela toma conta de mim e me despe por inteiro. Clarice é enigma, mas também encontro. É silêncio e rumores. É soco no meio do estômago. Clarice é tão minha quanto sou dela. Amo-a com urgência e necessidade. E quando professo ser uma clariceana, não minto.
São poucos os que não se rendem a vivacidade da sua escrita. Eu, por exemplo, me rendi muito fácil. 
Meu contato primeiro com Clarice foi através de uma entrevista que passava reiteradas vezes da TV cultura, concedida pouco tempo antes dela morrer. Fiquei fascinada quando a vi. Tudo nela mexia comigo: A sonoridade da voz, a languidez no olhar, seu ar arcano, a implicitude dos dizeres, o mistério do riso difícil, enfim, tudinho. Foi um amor desses que medra repentina e imediatamente. Já ali, percebi que Clarice dizia de mim. Foi então que decidi devassar seu mundo. Pretensão ingênua a minha, pois que nunca consegui, tamanho o seu icognicismo. 
Depois da entrevista, me rendi a soberba da sua escrita através do livro ' A Hora da Estrela', que à época foi a leitura mais incrível da minha vida, já hoje posso dizer cultivar de novos amores. 
'A hora da estrela' mexia comigo de um jeito especial. No auge dos meus treze anos 'me' descobri uma Macabea. Uma moça ingênua de vivência parca e amena, vazia de si, oca e cheia de ausências indizíveis. 
Macabea era um vivo retrato meu. Inteira. Intacta. A obra me acometia de sentires tantos. Cheguei inclusive a sentir raiva da ingratidão da nossa narradora com sua obstinação em dar um fim que não trágico aquela triste história. Pobre Macabea. Chorei sua dor. E ainda choro ao rememorá-la. De manso e por dentro.
E depois, depois já não dá pra minudenciar em palavras as minhas vivências com Clarice. Sei que me tornei uma leitora esfaimada de suas obras. 
A força e a intensidade das emoções que Clarice derrama na sua escrita é sempre uma grande provocação. Clarice escreve convidando-nos a mergulhar dentro de nós mesmos ao modo mais agônico possível. Nossa Clarice seduz, seja pelo seu atraente enigmatismo, seja pela sua introspectividade pungente ou sei mais lá pelo quê!
A razão da minha escrita é bem singela, é que apenas senti a ávida necessidade de fazer a seguinte revelação: Sou uma Clariceana confessa. Uma dessas leitoras apaixonadas que quando ler Clarice delira esfaimada, sem pudor, sem intimidação.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Uns dizeres e só.

Hoje, por pura nostalgia, fui reler uns velhos e-mails e encontrei um escrito, demasiado intimista, endereçado a um ébrio poeta amigo meu. É engraçado como as palavras sobrevivem intactas ao tempo. Estão sempre vivas. Entre muitos dizeres, colhi uma confissão que, em muito, se coaduna com o instante presente. Esses são os seus termos:  "Cá estou eu, mais uma vez, sozinha e acolhida por um cômodo alheio. Depois de um dia fatigante, debrucei-me sobre a cama e esperei pelo fechar voluntário das pálpebras. Tudo em vão. Estou sendo vigiada por sombras amorfas. E há tantas coisas que eu gostaria de fazer agora, mas não. Recebo o silêncio como hóspede e me deixo ir..."  Sem que haja transmudações. O sentir é inteiramente o mesmo.