Versejos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Uma Clariceana.

Já não sei se confessar meu amor as palavras faz parte de algum tautologismo chato que irrite a muitos. É que nunca me basta. Não se trata de mera redundância ou reiterações desnecessárias. Quando digo que amo as palavras estou sendo bastante franca. 
Não consigo vislumbrar quantas vezes confessei meu amor a essas damas faustas e acho que rememorar o quanto seria de uma escassez intelectiva terrível. Que se dane então! 
Hoje quero escrever sobre o arroubo e o enlevo acometido pelo contato com o vasto universo de palavras da Clarice Lispector. Devo começar com uma confissão: Clarice me toca. Essa mulher mexe comigo. Nutro encantos incomensuráveis por sua escrita vulcânica e apaixonante. 
Assim como Clarice, insisto em viver pra dentro. Sinto como se fôssemos íntimas, não sei se essa constatação é ingênua e se for que seja no mínimo escusável, redimam meus entusiasmos!
Quando leio e sinto Clarice, parece que ela toma conta de mim e me despe por inteiro. Clarice é enigma, mas também encontro. É silêncio e rumores. É soco no meio do estômago. Clarice é tão minha quanto sou dela. Amo-a com urgência e necessidade. E quando professo ser uma clariceana, não minto.
São poucos os que não se rendem a vivacidade da sua escrita. Eu, por exemplo, me rendi muito fácil. 
Meu contato primeiro com Clarice foi através de uma entrevista que passava reiteradas vezes da TV cultura, concedida pouco tempo antes dela morrer. Fiquei fascinada quando a vi. Tudo nela mexia comigo: A sonoridade da voz, a languidez no olhar, seu ar arcano, a implicitude dos dizeres, o mistério do riso difícil, enfim, tudinho. Foi um amor desses que medra repentina e imediatamente. Já ali, percebi que Clarice dizia de mim. Foi então que decidi devassar seu mundo. Pretensão ingênua a minha, pois que nunca consegui, tamanho o seu icognicismo. 
Depois da entrevista, me rendi a soberba da sua escrita através do livro ' A Hora da Estrela', que à época foi a leitura mais incrível da minha vida, já hoje posso dizer cultivar de novos amores. 
'A hora da estrela' mexia comigo de um jeito especial. No auge dos meus treze anos 'me' descobri uma Macabea. Uma moça ingênua de vivência parca e amena, vazia de si, oca e cheia de ausências indizíveis. 
Macabea era um vivo retrato meu. Inteira. Intacta. A obra me acometia de sentires tantos. Cheguei inclusive a sentir raiva da ingratidão da nossa narradora com sua obstinação em dar um fim que não trágico aquela triste história. Pobre Macabea. Chorei sua dor. E ainda choro ao rememorá-la. De manso e por dentro.
E depois, depois já não dá pra minudenciar em palavras as minhas vivências com Clarice. Sei que me tornei uma leitora esfaimada de suas obras. 
A força e a intensidade das emoções que Clarice derrama na sua escrita é sempre uma grande provocação. Clarice escreve convidando-nos a mergulhar dentro de nós mesmos ao modo mais agônico possível. Nossa Clarice seduz, seja pelo seu atraente enigmatismo, seja pela sua introspectividade pungente ou sei mais lá pelo quê!
A razão da minha escrita é bem singela, é que apenas senti a ávida necessidade de fazer a seguinte revelação: Sou uma Clariceana confessa. Uma dessas leitoras apaixonadas que quando ler Clarice delira esfaimada, sem pudor, sem intimidação.

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