Versejos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma prece.

Ah, sertão! Posso sentir o cheiro das tuas folhas cinzas
O amargo sabor da sua sequidez
E esse teu chão rasgado entrecortado de (dês) esperanças
O céu num fulgor: pulcro e sedutor
São nos olhos alheios e padecentes das Maria’s que enxergo a poesia
Nos seus gemidos prantos navego num mar de sons
Vem, chuva!
Sacia nossa fome, faz verdes os nossos lares, alimenta a nossa dor
Vem e atende as preces da fulana nordestina, antes que suas pálpebras cerrem e seus lábios já não possam mais gemer pelo calor do seu dulçor
Os rios lamentam águas mortas 
E os raios de sol que vem parindo no horizonte
Ilumina a face dos filhos dessa terra mãe seca
Vem, chuva!
Vem e sacia a nossa fome. 
                                                            

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sobre amor ou alguma outra coisa.


Certa vez os olhos diáfanos de um homem buscaram a proximidade nos olhos cintilantes de uma mulher. Ambos se quiseram com volúpia e desespero. Ambos se pediam famintos e urgentes. Comiam-se com os olhos. Rogavam-se com ímpeto. Renderam-se ao amor. Clementes. Necessitados. Hipnóticos. Obedientes. Era amor com balbúrdia. Amor com desordem. Embalaram-se no frenesi da paixão. E juntos, faziam-se delírios e arroubos e ardências e veemências e despudores. Ele oferecia-lhe orquídeas e serenatas de amor. Ela oferecia-lhe a alma, o corpo, a vida. Ambos preenchiam suas ausências sem encabulamento, sem intimidação. Ele, homem sóbrio e de apego as tradições, quis fazê-la sua convidando-a as solenidades de um romance. Ela fez-se entregue a tão arrebatado sentir. Fizeram as juras formais do para todo o  sempre. E devanearam. Devanearam com as intermináveis cálidas noites de afeto, com a triunfal e infinda existência do amor. E sorriam. Sorriam entusiasmados, com desejo, com gratidão. Viveram por muito tempo regados a fartura e abundância. Só que um dia a ausência do amor os partiu... Partiu dilacerando aquilo que um dia conjecturaram ser eterno.                                                                                  

sábado, 16 de julho de 2011

Sem título.

 Era mais uma das minhas viagens cotidianas. Estive acolhida a só numa poltrona velha e imunda num desses ônibus escrotos que fazem tour por aí. Estava um calor insuportável. Em desespero abrir as janelas daquela tralha infame e vetusta. Trouxe-me alívio até. Fiquei ali sozinha a observar o movimentar tumultuoso dos muitos e enérgicos passageiros que tentavam se arranjar em seus lugares e eis que me deparo com uma pequena. Seu nome era Gabriela. Soube disso horas depois. Gabriela entrou assustada. Era menina de riso difícil. Seus olhos carcomidos me comoveram.
O ônibus estava apertadamente cheio. Gabriela veio caminhando a passos curtos e tímidos. Estava acompanhada do pai e da mãe. Assentou-se numa poltrona a minha frente. Por instinto ela seguiria agarrada a mãe, mas fora colocada num canto apartada. Seus pais sentaram-se em lado oposto ao lugar que abrigava a minha pequena imaculada. Quando a vi tive vontade de colocá-la no colo, de fazer mimos, de cantar-lhe canções de ninar. Amei a pequena Gabi com tanta urgência, com tanto imediatismo. Desconheci a mim. Fui apresentada a nobres sentires que nunca me soou passíveis de acontecer. O dia carregava um quê peculiar e bonito. Estranhamente senti amor: Sôfrego, veloz, faminto. Era um amor maternal já me rasgando o peito. Amor pueril, amor principiante, amor de quem necessita amar.                                    
Nunca fui mulher de fácil comoção. Esse dia foi estranho e aposto a mim. Talvez a razão dos arroubos que carrego agora. Talvez razão da renascença que me acomete o hoje. Talvez o dia das minhas tardias redenções.                                       
 Havia me desgarrado dos medos e assombros que habitavam em mim, do meu habitual instinto em maldizer a vida. Eu fui parida de novo. Tingiram-me de nova cor: Ávida, viva, intensa, vibrante.
Não sei muito sobre os pais de Gabi. Eu os fitei sem muita emoção. Senti desprezo precipitado. Coisas que devem ser explicitada sobre pai e mãe: Eram dois eternos amantes. Um homem e uma mulher exaltados de paixão. Durante todo o trajeto não se cansaram de fazer trocas mútuas de olhares malícias. Fizeram de Gabi escória. Fizeram de Gabi ausência. Fizeram de Gabi inadmissão. Era engraçado observá-los sorrir nada incômodos, um a mordiscar o outro. Ritual de romantismo escroto, ou sabe-se lá o quê. Fogosos bastam a si. Gabriela talvez fosse o estorvo aquela volúpia desavergonhada no ônibus. O óbice aquela lascívia inapropriada e atemporal.                                                                                     
Esqueçamos por agora os dois. Deixe que eu fale da menina. Gabriela estava sentadinha, comedida e intimidada. Lembro-me bem da palidez no seu rosto. Vestia-se com roupas tão pouco menina, tão maltrapilhazinha, tão desajeitada! Seus cabelos eram um emaranhado de fios longos e despenteados. Era menina enjeitada pelo pai, pela mãe, talvez também pelo mundo. Tinha um olhar lânguido e dolente.
Gabriela era só desamparos. Fiquei a conjecturar sozinha sobre a razão daquela negligência impiedosa. Será Gabi fruto de um amor outro? Será Gabi procriação não-querida? Será Gabi cria sem legitimação? E tudo redundava nessas inquirições.
O rumo que a menina tomaria me era alheio. Sei que eu a seguiria até o ponto final, então meu observar seria íntegro enquanto estivéssemos ali. Entrava e saía gente. E esse ciclo perdurou por muito tempo. Não me cansava de olhar a menina. Tentei desnudar-lhe a alma. Vi pouco. Vi dor. Vi descontentamento. Vi retração. Ousei inclinar os olhos aos pais da menina, era altamente colérico contemplar aquele teatro de paixão obcecada. Gostar doentio.
Pararam o ônibus num desses armazenzinho de beira de estrada. Eu nem consegui me mover. Não tive vontade de sair dali. Nem tinha fome.
O pai de Gabriela levantou urgente e saiu. Atravessou os umbrais do mercado, veio munido de boas comidas. Vi pães com cobertura de goiaba na sacola. Havia latas de refrigerante. Pasteis num outro pacote. Os amantes comeram a tudo com volúpia e fome. E sorriam. E lambiam os dedos. E colocavam pão um na boca no outro. E sorriam de novo. As mãos tangiam furiosas os pacotes. Deliciavam-se com os pães. Entupiam-se de refrigerantes. E sorriam. Sorriam.  E se insinuavam. E comprimiam seus corpos um ao outro. E tinha beijos. E eram loucos. E eram ardentes. E tinham fome. E partilhavam mais pedaços de pão. Num ritualismo frenético e quase nojento. 
A menina estava do outro lado. Em típico esquecer. Levantei de leve o corpo e fiz menção de que ficaria de pé. Curvada deu para enxergá-la melhor. Vi a pobre adormecida na poltrona. Nem ousei querer lhe tomar nos braços e prestar-lhe alento. Seria atrever demais. Retornei contida ao meu canto.
Passaram-se algumas horas. A menina com seus cabelos assanhados levantou tímida e acenava com os dois braços a mãe e ao pai. Suas mãos eram invisíveis. Então ela fez uso da sua acanhada voz e gemia baixinho: - Mamãe, mamãe. E seus solfejos infantes eram inaudíveis. Insistiu reiteradas vezes fazer-se notada. Tudo em vão. 
Lembro que fora pouco o ínterim entre este acontecimento e o que estava por vir. Os amantes ergueram-se do assento e agoniados gritavam: - Vamos descer, vamos descer. Olhei para minha amiguinha desconhecida e sorri. Despedida triste. Ela me sorriu também. Como foi incrivelmente bom vê-la sorrir. Deslumbrada insisti em fitá-la e segurei o meu riso contente. Foi bem aqui que desvendei seu nome. O instante foi interrompido pelo barulho do ônibus a movimentar de novo. A menina olhou assustada e desatou em prantos. Aquele instante soou com tanta conveniência, pareceu que eu já esperava por aquilo. Sim, a menina fora esquecida mais uma vez. Agora não era um esquecer velado e dissimulante.  Ah, dessa vez doeu.  A menina chorava a muito.
Aqueles soluços constantes e doídos feriam meu peito. Atravessei rápida e a coloquei no colo. A comprimir junto ao meu corpo. Ofereci-lhe sem cerimônia o calor do meu abraço. A menina continuou atemorizada e chorante. Roguei aos gritos que parassem o ônibus, eu iria descer. Peguei minhas bolsas. Segui trôpega com a menina no colo.  Apertando-a ainda com mais força. Eu nem sabia mais de mim. Estava feito louca em busca de dois alheios amantes. Dois vagabundos amantes. Corri meio desajeitada pelas ruas negras e frias daquele lugarejo que me era incomum. Não sabia por onde ir. Onde entrar. Que rumo tomar.  Numa audácia atípica e invulgar, prosseguir com meus passos longos e céleres. Já sem muito fôlego. Sem esperança de encontrar os donos daquela pobre menininha.  Foi aí que avistei a imagem turva de um homem e de uma mulher salientes. Eram os pais de Gabi.  Gritei assustada. Então, eles, viraram sorrindo e despreocupados. Estavam tão embriagados com aquele romance que mal puderam notar a ausência da menina.    
Quando por fim aperceberam que eu carregava Gabriela nos braços. Quedaram-se inertes e posicionaram as mãos na cabeça em sinal de espanto. Ajuntaram-se a mim e proclamaram um: - Por Deus! Arrancaram-me vorazes a menina do colo. Sacolejaram a pequena chorosa e disseram-lhe: - Vês o quão desatenta és? Como ousa a não seguir a gente?
A menina se retraia em meio ao choro e ao medo. Escutava atenta aquele ritual de imputações desaforadas.    Eu quis me atrever a dizer algumas poucas palavras. Estava quase letárgica. Faltaram-me forças. Não falei. Olhei doída para a menina agarrada as pernas da mãe. Atônita. Estremecendo com os gritos do pai. Eu quis tirá-la dali. Furtá-la pra mim. Aspirei à delinquência. Céus!             
Foi então que a mãe, despertando daquela paixão obcecada, em fuga aquele pieguismo sacana, relegando a miopia, gritou desesperada ao homem. Esperneou com euforia.  Agarrou a menina nos braços. Beijou-a com tanta força. Havia amor. Estranho. Havia amor.                                                     
   Meu semblante era de uma amargura tamanha. Fora transmudando aos poucos quando vi a menina começar a sorrir. Estacou o choro. Apertava o rosto da mãe. Beijava-a de um canto a outro. Entusiasmo triunfal.
Passei a me sentir perdida por ali. Estava me imiscuindo de um momento que não devia ser meu. Acenei tímida e fui-me embora. Caminhei sem destino algum. Voltei com menos dor. Bordei Gabriela nas lembranças. Intento nunca apagá-la de lá.
Partimos a lados opostos. E aquele pedaço mal feito de viagem foi o bastante. Foi o bastante para me incitar o desejo de acontecer na vida sem tanta parcimônia. O bastante para que eu aprendesse a sentir a dor de alguém. O bastante para me salvar do modo amargo e doído que carregava no meu existir. O bastante para me provocar a ser o tudo e o muito que nunca fui.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sobre ser livre.


Ela tinha acordado disposta ao tudo. Ausente daquela sua dolência habitual. Sentiu a vida pulsar. Percebeu que sim: Fora parida para algum tipo de propensão. 

Levantou sem carregar o peso da sua animosidade cotidiana, tomou uns goles de café e seguiu calma até a modesta janela do seu hóspede e acanhado cômodo. Ela gostava da vida que se derramava fora da sua alcova particular: Enérgica. Vibrante.

A sonoridade assombrosa daquelas ruas balburdiosas e cheias se apresentavam como músicas aos seus ouvidos. Estava dispersa e distante. A fazer as mais loucas e eufóricas das confabulações. Sentia-se atraída pelo tudo que o ocasionar mostrava-se ser.

Encarava atenta, com aqueles seus olhos tépidos, a vida correndo lá fora. Ao modo mais audaz e profano se predispôs a solfejar versos de libertinas canções que o tempo lhe fizera serem sabidas: Temerárias. Incitantes.


Impetuosa não se impôs limites. Em hiato pontual e curto quis fazer-se plena. Salta trôpega do vigésimo terceiro andar: aquiescendo com a loucura, bradando liberdade, suplicando redenção.