Versejos.

sábado, 16 de julho de 2011

Sem título.

 Era mais uma das minhas viagens cotidianas. Estive acolhida a só numa poltrona velha e imunda num desses ônibus escrotos que fazem tour por aí. Estava um calor insuportável. Em desespero abrir as janelas daquela tralha infame e vetusta. Trouxe-me alívio até. Fiquei ali sozinha a observar o movimentar tumultuoso dos muitos e enérgicos passageiros que tentavam se arranjar em seus lugares e eis que me deparo com uma pequena. Seu nome era Gabriela. Soube disso horas depois. Gabriela entrou assustada. Era menina de riso difícil. Seus olhos carcomidos me comoveram.
O ônibus estava apertadamente cheio. Gabriela veio caminhando a passos curtos e tímidos. Estava acompanhada do pai e da mãe. Assentou-se numa poltrona a minha frente. Por instinto ela seguiria agarrada a mãe, mas fora colocada num canto apartada. Seus pais sentaram-se em lado oposto ao lugar que abrigava a minha pequena imaculada. Quando a vi tive vontade de colocá-la no colo, de fazer mimos, de cantar-lhe canções de ninar. Amei a pequena Gabi com tanta urgência, com tanto imediatismo. Desconheci a mim. Fui apresentada a nobres sentires que nunca me soou passíveis de acontecer. O dia carregava um quê peculiar e bonito. Estranhamente senti amor: Sôfrego, veloz, faminto. Era um amor maternal já me rasgando o peito. Amor pueril, amor principiante, amor de quem necessita amar.                                    
Nunca fui mulher de fácil comoção. Esse dia foi estranho e aposto a mim. Talvez a razão dos arroubos que carrego agora. Talvez razão da renascença que me acomete o hoje. Talvez o dia das minhas tardias redenções.                                       
 Havia me desgarrado dos medos e assombros que habitavam em mim, do meu habitual instinto em maldizer a vida. Eu fui parida de novo. Tingiram-me de nova cor: Ávida, viva, intensa, vibrante.
Não sei muito sobre os pais de Gabi. Eu os fitei sem muita emoção. Senti desprezo precipitado. Coisas que devem ser explicitada sobre pai e mãe: Eram dois eternos amantes. Um homem e uma mulher exaltados de paixão. Durante todo o trajeto não se cansaram de fazer trocas mútuas de olhares malícias. Fizeram de Gabi escória. Fizeram de Gabi ausência. Fizeram de Gabi inadmissão. Era engraçado observá-los sorrir nada incômodos, um a mordiscar o outro. Ritual de romantismo escroto, ou sabe-se lá o quê. Fogosos bastam a si. Gabriela talvez fosse o estorvo aquela volúpia desavergonhada no ônibus. O óbice aquela lascívia inapropriada e atemporal.                                                                                     
Esqueçamos por agora os dois. Deixe que eu fale da menina. Gabriela estava sentadinha, comedida e intimidada. Lembro-me bem da palidez no seu rosto. Vestia-se com roupas tão pouco menina, tão maltrapilhazinha, tão desajeitada! Seus cabelos eram um emaranhado de fios longos e despenteados. Era menina enjeitada pelo pai, pela mãe, talvez também pelo mundo. Tinha um olhar lânguido e dolente.
Gabriela era só desamparos. Fiquei a conjecturar sozinha sobre a razão daquela negligência impiedosa. Será Gabi fruto de um amor outro? Será Gabi procriação não-querida? Será Gabi cria sem legitimação? E tudo redundava nessas inquirições.
O rumo que a menina tomaria me era alheio. Sei que eu a seguiria até o ponto final, então meu observar seria íntegro enquanto estivéssemos ali. Entrava e saía gente. E esse ciclo perdurou por muito tempo. Não me cansava de olhar a menina. Tentei desnudar-lhe a alma. Vi pouco. Vi dor. Vi descontentamento. Vi retração. Ousei inclinar os olhos aos pais da menina, era altamente colérico contemplar aquele teatro de paixão obcecada. Gostar doentio.
Pararam o ônibus num desses armazenzinho de beira de estrada. Eu nem consegui me mover. Não tive vontade de sair dali. Nem tinha fome.
O pai de Gabriela levantou urgente e saiu. Atravessou os umbrais do mercado, veio munido de boas comidas. Vi pães com cobertura de goiaba na sacola. Havia latas de refrigerante. Pasteis num outro pacote. Os amantes comeram a tudo com volúpia e fome. E sorriam. E lambiam os dedos. E colocavam pão um na boca no outro. E sorriam de novo. As mãos tangiam furiosas os pacotes. Deliciavam-se com os pães. Entupiam-se de refrigerantes. E sorriam. Sorriam.  E se insinuavam. E comprimiam seus corpos um ao outro. E tinha beijos. E eram loucos. E eram ardentes. E tinham fome. E partilhavam mais pedaços de pão. Num ritualismo frenético e quase nojento. 
A menina estava do outro lado. Em típico esquecer. Levantei de leve o corpo e fiz menção de que ficaria de pé. Curvada deu para enxergá-la melhor. Vi a pobre adormecida na poltrona. Nem ousei querer lhe tomar nos braços e prestar-lhe alento. Seria atrever demais. Retornei contida ao meu canto.
Passaram-se algumas horas. A menina com seus cabelos assanhados levantou tímida e acenava com os dois braços a mãe e ao pai. Suas mãos eram invisíveis. Então ela fez uso da sua acanhada voz e gemia baixinho: - Mamãe, mamãe. E seus solfejos infantes eram inaudíveis. Insistiu reiteradas vezes fazer-se notada. Tudo em vão. 
Lembro que fora pouco o ínterim entre este acontecimento e o que estava por vir. Os amantes ergueram-se do assento e agoniados gritavam: - Vamos descer, vamos descer. Olhei para minha amiguinha desconhecida e sorri. Despedida triste. Ela me sorriu também. Como foi incrivelmente bom vê-la sorrir. Deslumbrada insisti em fitá-la e segurei o meu riso contente. Foi bem aqui que desvendei seu nome. O instante foi interrompido pelo barulho do ônibus a movimentar de novo. A menina olhou assustada e desatou em prantos. Aquele instante soou com tanta conveniência, pareceu que eu já esperava por aquilo. Sim, a menina fora esquecida mais uma vez. Agora não era um esquecer velado e dissimulante.  Ah, dessa vez doeu.  A menina chorava a muito.
Aqueles soluços constantes e doídos feriam meu peito. Atravessei rápida e a coloquei no colo. A comprimir junto ao meu corpo. Ofereci-lhe sem cerimônia o calor do meu abraço. A menina continuou atemorizada e chorante. Roguei aos gritos que parassem o ônibus, eu iria descer. Peguei minhas bolsas. Segui trôpega com a menina no colo.  Apertando-a ainda com mais força. Eu nem sabia mais de mim. Estava feito louca em busca de dois alheios amantes. Dois vagabundos amantes. Corri meio desajeitada pelas ruas negras e frias daquele lugarejo que me era incomum. Não sabia por onde ir. Onde entrar. Que rumo tomar.  Numa audácia atípica e invulgar, prosseguir com meus passos longos e céleres. Já sem muito fôlego. Sem esperança de encontrar os donos daquela pobre menininha.  Foi aí que avistei a imagem turva de um homem e de uma mulher salientes. Eram os pais de Gabi.  Gritei assustada. Então, eles, viraram sorrindo e despreocupados. Estavam tão embriagados com aquele romance que mal puderam notar a ausência da menina.    
Quando por fim aperceberam que eu carregava Gabriela nos braços. Quedaram-se inertes e posicionaram as mãos na cabeça em sinal de espanto. Ajuntaram-se a mim e proclamaram um: - Por Deus! Arrancaram-me vorazes a menina do colo. Sacolejaram a pequena chorosa e disseram-lhe: - Vês o quão desatenta és? Como ousa a não seguir a gente?
A menina se retraia em meio ao choro e ao medo. Escutava atenta aquele ritual de imputações desaforadas.    Eu quis me atrever a dizer algumas poucas palavras. Estava quase letárgica. Faltaram-me forças. Não falei. Olhei doída para a menina agarrada as pernas da mãe. Atônita. Estremecendo com os gritos do pai. Eu quis tirá-la dali. Furtá-la pra mim. Aspirei à delinquência. Céus!             
Foi então que a mãe, despertando daquela paixão obcecada, em fuga aquele pieguismo sacana, relegando a miopia, gritou desesperada ao homem. Esperneou com euforia.  Agarrou a menina nos braços. Beijou-a com tanta força. Havia amor. Estranho. Havia amor.                                                     
   Meu semblante era de uma amargura tamanha. Fora transmudando aos poucos quando vi a menina começar a sorrir. Estacou o choro. Apertava o rosto da mãe. Beijava-a de um canto a outro. Entusiasmo triunfal.
Passei a me sentir perdida por ali. Estava me imiscuindo de um momento que não devia ser meu. Acenei tímida e fui-me embora. Caminhei sem destino algum. Voltei com menos dor. Bordei Gabriela nas lembranças. Intento nunca apagá-la de lá.
Partimos a lados opostos. E aquele pedaço mal feito de viagem foi o bastante. Foi o bastante para me incitar o desejo de acontecer na vida sem tanta parcimônia. O bastante para que eu aprendesse a sentir a dor de alguém. O bastante para me salvar do modo amargo e doído que carregava no meu existir. O bastante para me provocar a ser o tudo e o muito que nunca fui.

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