Versejos.

sábado, 26 de outubro de 2013

Sobre a inércia de quem silencia ante aquilo que choca.



Era uma tarde de sexta-feira quando ecoou pela ruas da cidade a notícia sobre um suposto estupro que teve como vítima uma pequena garotinha de seus tão poucos e tenros sete anos. Após tomar ciência dos fatos, não pude deixar de me render ao espanto estarrecente, tamanha a bestialidade, tamanha a crueldade, tamanha a covardia. Deveras ainda me surpreendem as cruezas e vilidades costumeiras do mundo. 

Paro. Emudeço. Estilhaço em espasmos doídos e intermitentes. Naufrago em cólera. Angústia. Raiva. Indignação. Quão torturante é conjecturar sobre os fatos e sua sucedência. Quão torturante é imaginar a nossa pequena e imaculada vítima sendo submetida aos degradantes atos do seu suposto algoz com toda sua volúpia e seu despudor e sua asquerosidade e sua covardia e sua sanha necessidade de satisfazer aos seus mais bestiais instintos sexuais. A ele, suponho, nada importava, nem mesmo a pouca idade da vítima e sua meninice e sua fragilidade e sua candura. Nada. Meu Deus!
 
Só de em nisso pensar todo o meu corpo se punge. E choro. Choro de manso e por dentro. Choro a dor da menina. E não dela apenas. Choro as dores de todas as outras que também foram vítimas de igual covardia. Choro por todas as que tiveram s uas infâncias roubadas. Por todas as que tiveram seus corpos infantes violados. Por todas as que retraídas e impingidas de medo sequer conseguem balbuciar seus soluços de dor. Choro por todas as que tiveram suas almas mutiladas. Choro seus dramas e traumas. Choro também nossa omissão. Nossa indiferença. Choro a nossa incapacidade de irresignar-se ante o que nos choca e o que nos horroriza. Choro a ausência da indignação coletiva ante o caso. Choro o falso isentismos dos que escolhem ao seu bom alvedrio o que deve ou não virar notícia. Choro o nosso silêncio estatelante e seus intermináveis ecos. Choro a mudez de nossa voz.