Versejos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

À minha mãe, Maria de corpo, de alma e de nome.

Minha avó materna, que se chamava Maria, morreu quando minha mãe, também de nome Maria, era mulher de pouca idade. À época em que ela foi-se embora desse mundo habitar paragens outras, meu existir sequer era cogitação. Tive a grata sorte de conhecer um pouco mais a seu respeito através das histórias contadas por minha mãe, que sempre disse a mim com virtude, orgulho e comoção nos olhos: - Você iria gostar e sentir muito orgulho de ter conhecido sua vó, Áquila! Uma mulher tão forte, tão corajosa, tão digna! 

Pelo que conta minha mãe, Maria-vó enfrentou muitos problemas na vida. Mulher pobre, com um lar cheio de filhos para criar. Mas se saia bem no laborioso e dificílimo mister de driblar as adversidades, de resistir com coragem e fé as durezas do mundo. Tinham pouco. Mas minha mãe diz, que viviam como se fossem completos de tudo: - A pobreza tem lá o seu lado bom também. É agregadora, minha filha. Eu sei, mãe, eu sei.


Maria-vó zelava tanto pela casa e pelos filhos e pelo marido, que acabava se esquecendo de si mesma. Creio ser esse o ponto comum a todas as mães do mundo. São prenhes de um amor de proporções absurdas que excede a qualquer entendimento. Vovó morreu ainda jovem. Ainda nova, minha mãe, já órfã, teve que aprender junto aos seus irmãos a lidar com as durezas e o sofrer de uma vida amena e tacanha.


Casou-se ainda moça. Teve oito filhos. E durante esses seus sessenta e dois anos de existência enfrentou problemas dos mais brabos, e venceu a todos eles sem hesitar um instante que fosse. Sempre intrépida, corajosa e forte. 


E eu não poderia deixar de dizer que sempre nos momentos mais difíceis da vida, nos mais dolorosos, quando a gente achava que ela iria fraquejar um pouco, impressionantemente ela se agigantava ainda mais. Sinceramente não sei de onde essa mulher 'tira' tanta força! 


Ainda essa semana, num dos que episódios que ouso dizer ter sido um dos mais tristes das nossas vidas, voltei a me surpreender com sua garra, com a sua vontade de vida, com a forma serena com que lida com aquilo que punge. 


Escapou com vida num acidente de carro de que foi vítima, ao que o médico arriscou chamar de um tremendo milagre. Conhecendo as circunstâncias também nomino assim.
Sofreu terrivelmente esses dois dias e em nenhum instante, acreditem, ela ousou deixar de sorrir. Sorrir com aqueles seus olhos cândidos, tênues, esperançosos. Com aqueles olhos que quando se miram silentes a mim, me enchem de vontade de vida. De ser-se vida. Em abundância.


Penso que minha vó foi feliz ao escolher batizar minha mãe com o seu mesmo nome: Maria! Desde sempre, assim como Maria-vó, minha mãe carrega consigo cravada na pele, essa insígnia de que o poeta traduziu bem na sua canção de poética visceral: de ser essa mulher que rir quando deve chorar; que mistura a dor e a alegria; que tem força e raça e gana sempre; que tem manha, tem graça, tem sonho; e que possui a estranha mania de ter fé na vida.


Fé na vida, mãe. Acho que é essa é a marca maior que tens. E é por isso que não se demora e a senhora tão logo ficará bem. Plenamente recuperada e pronta para travar outras tantas batalhas quanto possíveis. 


Porque tu és nossa Maria. Maria de corpo, de alma e de nome!
 

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