Versejos.

sábado, 19 de julho de 2014

- Nós, os outros, os do lado de cá.



Dia nove de julho. Famílias carentes, dessas que vivem às margens da sociedade - e por que também não às margens do nosso egoísmo e da nossa própria consciência? - abandonadas e esquecidas pelo poder público, 'ocuparam' - as palavras nos servem para traduzir visões de mundo - as inacabadas construções do que deveria ser o conjunto habitacional de casas populares destinadas a atender 30 famílias pobres em Uauá.

Os novos ocupantes são pessoas distintas das que possivelmente teriam sido contempladas pelo programa social do Governo Federal, mas não menos carentes quanto estas. Nasceram com a mesma insígnia 'cravada na pele': pobres! Pertencem a mesma condição social e enfrentam por ai os mesmos problemas de acesso a direitos fundamentais básicos, como uma vida minimamente digna e um lar para chamar de 'seu'.

Não pretendo dar razão a ninguém nessa história, afinal, não sou senhora de razão nenhuma. E as circunstâncias, tal como se apresentam, não me permitiram tanto. Também não me valerei de argumentos jurídicos para expor minha opinião, discorrendo aqui sobre Direitos Fundamentais ou sobre o princípio da Dignidade da Pessoa Humana ou quem sabe até sobre a Função Social da propriedade. Nada disso. É um desabafo que ‘tinjo’ com o tom da pessoalidade e só.

Se vale a confissão, ontem estive visitando o complexo das 'casas populares'. Casas tacanhas. Paredes ainda nuas. Não há portas, janelas, piso ou energia elétrica. Também não possuem teto. Se assemelham aquela casinha da velha, nostálgica e terna canção do poeta Vinícius da 'rua do bobo número zero'.

Quando cheguei ao local fiz logo questão de me aproximar para vislumbrar de mais perto a peraltice 'duns' meninos que se brincavam sorridentes por ali. Não é exagero de minha parte, mas a cena era de uma crueza real pungente. Meus Deus, como me comove a serena ingenuidade das crianças! Não me ative ali e fui mais adiante, olhando atenta a tudo. Mais a frente me deparei com uma senhora. Fitei seus olhos tão cheios de dignidade, ela estava a varrer a terra a frente da sua ‘casa nua’, ornada (?) apenas com lençóis de algodão de poucos fios, finíssimos! Era esse o traço comum a todos aqueles lares enfileiradinhos ali. Lençóis que foram transformados em portas, janelas.

Voltando a senhora, quando a mirei senti seu olhar um tanto assustado, talvez tivesse a conjecturar que eu seria mais uma dos que 'estão do lado de cá', nós, os outros, os que se arriscam covardemente a apontar o dedo para julgá-la. Passei. Caia uma garoinha aquela hora do dia e o céu prenunciava que mais tarde choveria mais forte. Nesse instante, me questionei: que mãe, com crianças pequenas, se prestaria a ocupar um casa inacabada, com uma lona preta a servir de teto e lençóis como porta, sujeitando-se às chuvas e a todo tipo de infortúnio, com má fé ou intenção deliberada de prejudicar alguém?

Se estão ali, é porque certamente não tiveram escolha. Não lhes deram essa chance. Estão ali porque sempre enfrentaram problemas, dificuldades e até mesmo miséria. Estão ali porque fazem parte de uma parcela significativa dessa população que é vítima do descaso e do abandono do poder público, da segregação e da exclusão social, essa realidade dura e cruel que ainda assombra a tantos.

Talvez seja realmente cômodo e muito fácil para pessoas que tiveram o privilégio de ter uma ótima casa para morar, que possuem um bom emprego e uma ótima remuneração para bancar uma vida de padrões razoáveis de qualidade, exercer nessas circunstâncias o papel quase 'tirano' de fazer juízos condenatórios em desfavor de pobres miseráveis que amargam ante as dificuldades e as durezas da vida e que não possuem um lar para prestar alento a 'si e aos seus'.

São só necessitados, eu arrisco a dizer. E pela posição que ocupo, não me sinto digna, nem tampouco no direito de julgar necessitados. Não mesmo.

Sinto indignação sim diante desse fato. Mas não me indigna toda essa gente que despojada de tudo, resolveu ocupar 'nuas' casas alheias e transformá-las num lar, me indigna é a incompetência política daqueles que foram colocados à frente do poder governamentativo para gerir da melhor forma o nosso município e brincam com a coisa pública, aviltam nossa gente sofrida. Me pergunto: Onde diabos foram parar as verbas destinadas pelo governo federal para a implementação desse importantíssimo programa de inclusão social, garantindo o acesso a moradia aqueles que não a tem?

E quanto aos não contemplados pelo programa que hoje não tem também onde morar, por que são esquecidos pelas ações da secretaria de desenvolvimento social e de combate a pobreza do município?
Quais políticas de assistência aos pobres e de combate a pobreza a referida secretaria tem desenvolvido para cuidar de problemas como esse? - Não incluindo aqui as conhecidíssimas e criticáveis medidas assistencialistas e eleitoreiras de distribuição de peixe na santa semana, como forma de redenção.

O que o poder público tem feito para amenizar o sofrimento desses que vivem às margens ou o que tem feito para garantir um mínimo de bem-estar a quem não tem onde morar? E a resposta por mais dura que seja, é bem simples: Nada!!

Poderíamos tratar a situação com um mínimo de vontade e sensibilidade política, identificando essas 30 famílias que estão lá em situação de risco, necessitando de atendimento e prestar a eles o ambaro necessário. Mas isso é querer demais, né não?

Mas há os que preferem criticar, ao revés de sensibilizar com essa situação insustentável e triste.

Ante a adversidade e a falta de compromisso do poder público, lhes asseguro, não houve realmente outra alternativa a essas famílias que não a de ocuparem aquelas construções abandonas a serviço de nada e de ninguém. Espero apenas que o episódio sirva para nos despirmos um pouco do nosso egoísmo e dessa mania hipócrita de julgarmos a tudo e a todos, porque criticar é fácil, difícil é se colocar no outro ou quicá fazermos nossa parte.

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